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Desabafo Não ia falar sobre isso. Até por que a Corai Rónai escreveu tudo o que eu queria ter dito na sua coluna, hoje , no O Globo. Mas, por vários motivos, aqui vai o meu desabafo. Até agora não sei o que considero como sendo mais vergonhoso : o Gabeira ter sido pego com a mão na botija ou a sua declaração, após o flagrante: “ erramos porque consideramos a cota de passagens como propriedade nossa, embarcando na grande ilusão cultural brasileira que confunde o público com o privado”. Concordo com ele. Muita gente, nesse país, faz essa confusão, mas um Deputado Federal tem o dever e a obrigação de saber essa diferença. Aliás, cá entre nós, todos nós sabemos. Em geral, ninguém erra ao declarar o imposto de renda a favor do público. Ao esquecer a declaração de um aluguel é para favorecer o próprio. Quando alguém fura a fila do SUS é para favorecer algum familiar. E o dinheiro do escândalo das ONGs fantasmas , aqui no Rio , foi para o bolso de poucos e não para uma conta- coletiva para fins social. Quando a farinha é pouca meu pirão primeiro. Mas, ao contrário disso, em Brasília, sobra farinha. O Gabeira sabe disso. E deve ter sido na abundância dessa farinha que ele escorregou ao considerar que ninguém sentiria falta se usasse um pouquinho da farinha para a filha viajar ou para um monge meditar em outras terras. Laranja podre contamina, já dizia minha avó, e ele foi contaminado pela podridão do congresso. Mas isso não é desculpa por que até onde eu saiba ele não é uma laranja num cesto. E não lhe faltam uma cabeça para pensar , uma boca para falar e pernas para se locomover. E contaminou-se, sei lá por que . Pelo que eu entendi, ele iria propor medidas para normatizar o uso das cotas das passagens. Desconheço as normas internas do congresso. Mas ainda que não exista nenhuma norma legal, proibindo a doação das passagens , ele, sendo um deputado defensor da ética , não necessitaria de uma norma, proibindo-o de utilizar o dinheiro público para fins particulares. Até onde eu saiba ele, mais que qualquer outro parlamentar , foi eleito justamente para combater isso. Ou estou enganada ? E se por um acaso ele foi vítima de uma espécie de confusão-cívica-moral que o levou a confundir o público com o privado , como ele mesmo afirmou, por que durante a campanha para prefeito do Rio não nos agradeceu por ter usado o nosso dinheiro para a filha matar a saudade da irmã no Havaí ? Como escreveu a Cora Rónai: o que mais ele fez que ainda não veio à tona ? Boa pergunta.
Escrito por Mônica Campos às 17h15
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Divã Quando o filme acabou ouvi o seguinte comentário de uma mulher: lavei minha alma. Divã, protagonizado impecavelmente pela Lílian Cabral e dirigido por José Alvarenga, é uma catarse feminina. O cinema, assim como o teatro e a literatura, ou seja, as manifestações artísticas, no fim das contas, querem transformar o mundo em luz. E divã nos emociona por isso. Embora haja muitas sombras, uma delas simbolizada na figura do psicanalista, o caminho é de luz. Muitos filmes, ao abordarem a questão feminina, batem na trave. Divã não. Ele é aquele time que vai driblando os adversários e na final do campeonato vence de goleada e a galera pula e se abraça por ser um espetáculo bonito de se ver . E é. É muito bonito sentar na cadeira do cinema e assistir a uma estória cuidadosamente bem contada. É muito bonito assistir a uma atriz se entregar de corpo e alma a uma personagem, conferindo ao ingresso, preço de ouro. E do melhor quilate. E é muito bonito assistir a uma estória onde não há juízo de valor nas entrelinhas e a moral é que a felicidade é uma questão de escolha e o melhor lugar do mundo poder ser aqui e agora. Ou seja, divã é, em alguns momentos, simples e delicioso que nem uma caminhada na enseada de Botafogo e, em outros momentos, perigoso e arriscado que nem uma escalada ao cume do pão de açúcar. Talvez por isso nos prenda na cadeira e nos deixe grudados nela como se fossemos hera na parede. E entre lágrimas e risos esquecemos do balde de pipoca e do refrigerante por que é impossível durante 120 minutos fazer outra coisa que não seja torcer para que aquela mulher que poderia ser eu ou você fazer a coisa certa.E ela faz.Após 20 anos de casamento, onde o ponto final foi colocado após perceber que a cama do casal servia para tudo menos para lhe dar prazer sexual, Mercedes decide sair da piscina de água morna, cheia de lodo nas bordas, onde boiava junto com o Marido ( Jose´Mayer ) para se arriscar sozinha nas borbulhantes e imprevistas ondas do mar . E para ajudar nesse mergulho, até por que o mar nem sempre está para peixe, ela bate na porta de um psicanalista. Entra , titubeia, senta, deita e decide no divã encarar as ondas que viriam. E vieram. Traição , separação, paixões , solidão, arrependimento , amor e frustração e mais um monte de emoções e situações com a qual nos identificamos. Reinaldo Gianecchini e Cauã Reymond ( seus amantes ) estão lindos e desempenham belamente o papel de sedutores de coroas que vieram ao mundo para provar , através de um explosivo e delicioso coktail de beleza juventude e vigor que o paraíso existe aqui na terra. E o inferno também. Como o título sugere, uma parte significante do filme é passado dentro do consultório do psicanalista. As revelações de Mercedez , além de serem gancho para a cena seguinte, são muito perturbadoras. A mais polêmica é quando ela afirma não sentir culpa pela traição. E rindo diz que sente-se culpada por não se sentir culpada . Foi um jogo de palavras que levou o cinema abaixo de tanto rir. E a gente sabe por que. Mas tudo que toca no emocional é sempre complexo e infelizmente não existe uma rede de proteção nem espiritual e nem psicanalítica e nem de ordem nenhuma para nos salvar dessa onda de contradições, onde vira e mexe nos afogamos e que transborda em torno daquilo que nos é mais caro nessa vida e aprendemos a chamar de amor.Ao decidir se separar do marido, pai dos seus dois filhos, um homem que ela amou muito e foi seu companheiro durante vinte anos, Mercedez confusa, como qualquer uma nessa situação, diz : a gente se ama, mas não se quer mais. Não é à toa que se chama Divã.
Escrito por Mônica Campos às 15h00
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Porta Estreita
Segundo a Xuxa, o cara lá de cima quer apenas a felicidade dos casais, dispensando exigências de ordem civil ou de cunho religioso . Elba Ramalho, recém- separada, considerava seu casamento um castelo construído sob uma firme montanha, porém, há pouco, constatou que o terreno era derrapante . Essa semana, ouvi uma definição impecável a respeito da expectativa feminina, em relação aos homens : eu tenho a impressão que, de vez em quando, eles somem e se escondem atrás da porta. Perfeito. Depois de noites abrilhantadas por beijos intermináveis, corpos inseparáveis e gozos inebriantes, temos a certeza que nem uma obra de arte, fundida em bronze, é mais sólida que o amor que o outro nutre por nós. Talvez esse seja o delírio mais alucinante e no qual fazemos questão de acreditar . E nem por um átimo de segundo achamos existir um mísero grão de possibilidade desse sólido amor transformar-se num sentimento mais gasoso que uma baforada de calor.
Mas aquele homem que um dia acreditamos ter nos amado acima de todos os seres do universo, aquele homem que entre sussurros picantes e sorrisos generosos nos levou a acreditar que aqui é o melhor dos mundos, aquele homem que um dia preencheu todas as curvas e contornos do caminho da paixão , de um momento para o outro, sem nenhuma explicação astrológica ou metafísica e sem ao menos uma mensagem ou telefonema de uma taróloga ou mãe- de- santo some. E como me disseram: esconde-se atrás da porta. Mas como toda brincadeira, a do esconde – esconde também pode ser reveladora. O casal começa a percorrer caminhos perigosos e um belo dia não consegue mais passar pela porta com a facilidade e displicência com que passava até então. E surpresos percebem que a porta tornou-se estreita para ambos. Está escrito na bíblia, nas palavras do apóstolo Lucas : esforçai-vos por que a porta é estreita. No início , os caminhos que apresentam-se para um casal são muitos e fascinantes : casa nova, sexo inesgotável, possibilidade de filhos, viagens divertidas , crescimento profissional, alegria das famílias e outras tantas . Com o tempo, as possibilidades vão esgotando-se e as portas cerrando-se. E a que resta é estreita. Quem já foi ou é casado sabe que a parada é uma delícia, mas, às vezes, é punk demais . Casamento é uma opção que exclui muitas outras. E uma delas é a possibilidade de vivenciar outros amores. Mas nem vou falar sobre isso por que é cansativo, além de chover no molhado, até por que ninguém gosta de ser traído. E há outras opções tão ou mais difíceis como, por exemplo, aceitar o outro com todas as mazelas, pequenezas e faltas inerentes ao ser humano. Sendo que o maior desafio é encarar a nossa impotência, frente a isso, por que não somos deusas ( como desejaríamos ser ) para curar os homem.
Mulheres e homens são abandonados a todo instante. Mas escrevi sobre o abandono feminino e adorei a imagem deles, escondendo-se atrás da porta por que ouvi a Elba Ramalho queixar-se da pisada de bola.do marido . Por mais que eu entenda sua dor, que não deve ser pouca após anos de casamento, fiquei surpresa com fato dela ( logo você Elba que povoou a fantasia dos caras da minha geração, dançando como poucas em cima daquele par de pernas invejáveis ) vir a público, nessa altura do campeonato, ( eu sei que paixão não tem idade mas nessa vida temos que aprender alguma coisa ) reclamar do marido como se ela fosse uma menininha de colégio interno. Mas, enfim, ela deve ter suas motivações para agir dessa maneira. E não poupou o cara nem um tiquinho. Disse que faltou a ele caráter ao traí-la várias vezes e ainda reclamou dos amigos que sabiam das escapadinhas do bonitão e nada lhe avisaram . ( coitado dos amigos) Ou seja, do homem ideal e eterno companheiro que um dia ele fora, transformou-se em um ser mais nocivo do que uma praga de gafanhotos. Pesado, não ? Posso estar enganada, mas pelo visto a porta da casa da Elba está estreitíssima .
E se bobear travou .
Escrito por Mônica Campos às 08h21
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Ouro do Melhor Quilate
Uma marca de cosméticos vende sua imagem com a seguinte frase: você pode ser o quiser. Perfeito. Sabemos que o bom publicitário não é um vendedor , mas um sedutor , uma espécie de Dom Juan do Marketing. E quem não quer ser bonito feliz e bem sucedido? Existem muitas coisas difíceis nessa vida, mas uma das mais difíceis talvez seja nos livrarmos das fantasias que nos entorpecem. E são tantas que daria um livro. Querer é poder, Deus ajuda a quem madruga, amor de mãe é incondicional, criança é pura, quem ama não trai e o amor é para sempre. Agarramos-nos a esses ditados com a mesma força e desespero que um náufrago se agarra a uma tábua no meio do oceano. E não é à toa. A vida não é uma travessia curta e muito menos fácil. Não é um passeio de barco na Ilha Grande e nem sempre o mar está para peixe. Mas vamos navegando. Dias melhores, dias piores, céu azul, nublado, chuva, tempestade e lá vamos nós por que o horizonte é longe. E é lá, no paraíso prometido, onde queremos desembarcar. Ninguém quer ficar abandonado no meio do caminho. Queremos ser recebidos por uma multidão de anjos nos dando boas vindas e nos prometendo uma felicidade mais valiosa que ouro e mais clara que cristal. Mas quem já folheou a bíblia sabe que para entrar na cidade celestial não basta apenas querer. Até por que muitos são os chamados e poucos são os escolhidos e é inevitável no meio da travessia nos confrontarmos com um maremoto. Para uns ele chega aos dez anos através de uma orfandade precoce, para outros aos vinte anos quando o grande amor vai embora, ou aos trinta quando a profissão escolhida não rende dinheiro, aos quarenta quando o casamento desmorona e aos cinqüenta quando o filho adulto não é a réplica da criança genial que um dia ela fora. Mas depois que o maremoto passa o desafio é saber como tratar as feridas. Sim, por que ninguém passa incólume a ele. E só há duas escolhas: ou colocamos um tampão-piedade em cima do ferimento ou o encaramos .
Escrevi tudo isso por que ao ver a Maurren beijar o pódio, antes de subir para receber a medalha de ouro, me emocionei muito e elejo essa como sendo a imagem mais linda desses jogos. E me lembrei que só podemos ser o que queremos quando temos a nobre coragem de mexer nas nossas feridas , arder até a alma virar cinzas e o resto já sabemos. Maurren, ao receber sua medalha, cumpriu o que a psicanálise chama de ato de vontade. E ato de vontade não tem nada a ver com desejos fantasiosos. Fantasia é uma espécie de droga que entorpece e paralisa. É aquela mulher que deseja ter o corpo da Claudia Raia, mas passa a vida, comendo quilos de chocolate na frente da televisão e acredita que um creme anti-celulite vai promover a tão sonhada beleza. O desejo do ato de vontade é o da realização da possibilidade daquilo que aprendemos a chamar de real e não dos quereres infantis de desejar que tudo seja lindo e maravilhoso a todo instante. Maurren conquistou o que ela podia e não apenas o que ela queria. Por que se seguisse somente os seus quereres não teria sido banida das competições por causa de uma pomada. Se seguisse os seus quereres não teria entrado no labirinto infernal e solitário onde fora do dia para a noite jogada. Mas não se perdeu e achou o caminho de volta. E sozinha. Por que nessas horas não existe nada e ninguém que possa nos resgatar. Talvez essa seja a nossa maior provação : aceitar que a vida ( com todos os dissabores e não apesar deles ) é uma escolha individual, interna e solitária. Maurren poderia passar o resto dos seus dias, lamentando a insensibilidade dos que a condenaram por ter feito uso de uma pomada. Poderia passar a vida, contando ao mundo que foi injustiçada pelos invejosos de plantão. E o pior: poderia passar a vida, torturando a filha, afirmando que o mundo é cruel e que nada vale a pena por que o mal sempre vence o bem. Ou seja, poderia virar refém da sua própria piedade, mas resolveu fazer o que poderia ser feito e o melhor : ela sabia que podia.
Voltou a treinar, transformou as mágoas em vontade de viver e o mais bacana : mostrou ao mundo que a vida é um lugar cheio de reais possibilidades e não de bobos quereres . Sem dúvida Maurren é de ouro.
E do melhor quilate.
Escrito por Mônica Campos às 23h12
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Não Há Perdão
Há muitos anos li uma notícia que um homem ao entrar em casa e perceber que havia alguém no quarto do filho passou a mão na arma e entrou, atirando para matar. Quando olhou o morto, estirado no chão, viu cravejado de balas como se fosse um rato de bueiro pestilento seu próprio filho que ele supunha estar viajando. Não faço a menor idéia que fim levou esse pobre homem e sua família. Não sei se um ser humano consegue viver com a alma, banhada por um rio margeado por tanta dor e culpa e poluído por sombrios ressentimentos. Dizem que Deus dá o cobertor conforme o frio. Mas não sei se existe alguma maneira de aquecer uma alma congelada por tanta dor. E sei menos ainda se a vida faz algum sentido depois de tamanha tragédia. Antes que me perguntem por que a vida tem que fazer sentido respondo que é humano dar sentido a ela. Não seguimos apenas os nossos instintos como os animais. E é isso que nos diferencia deles. Necessitamos dar um sentido a isso que alguns chamam de passagem, outros de aventura e os menos crédulos de acaso cósmico. Questionamos Deus a todo instante, nos angustiamos todos os dias com a nossa finitude e nos revoltamos com a nossa impotência diante de muitas situações.
Somos capazes de um monte de coisas que até bem pouco tempo eram inimagináveis. Fazemos mais crianças em laboratório do que bonecas nas fábricas, os cientistas vão à Lua com mais tranqüilidade do que atravessamos a linha vermelha e falar com a Europa ficou mais rápido do que ser atendida pela operadora do próprio celular. Conquistamos esses feitos. Embora não exista uma pessoa que não se pergunte para que serve tanta invenção tecnológica se, às vezes, agimos como no tempo em que vivíamos dentro das cavernas, matando o primeiro suspeito de roubar a valiosa caça. Para que servem os quilos de sabedoria iluminista que nos asseguram um Estado Democrático de Direito se um homem fardado mata uma criança por que a confundira com um bandido? Não vamos nos enganar. Se as balas tivessem sido disparadas em direção a um carro cheio de bandidos estaríamos comemorando. Infelizmente também somos assim. Quando o predador bate a nossa a porta queremos exterminá-lo. Está aí a nossa impotência . Nós nos achamos seres mais inventivos que os animais. E somos . A tecnologia , as artes, a ciência e a filosofia são uma prova disso. Mas por que até hoje não conseguimos inventar uma maneira de viver menos violenta ? Por que até hoje não conseguimos inventar uma maneira de nos organizarmos onde haja oportunidades pelo menos para maioria? E são tantos os porquês que eu paro por aqui.
Tem muita coisa dando errado no Rio de Janeiro , mas é um erro perigoso e é cruel , acharmos que a solução é matar ou morrer. E infelizmente defendemos esse estado primário e cruel de violência que há muito deveríamos ter ultrapassado. Antes que eu acabe meu texto- desabafo , escrevi isso só para dizer que nenhuma criança merece morrer aos três anos de idade assassinada como se fosse um camundongo.
Não há perdão, Secretário.
Escrito por Mônica Campos às 22h03
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EXTRAORDINÁRIO
Virou mexeu leio que Monsieur Créu brigou com a mulher melancia. E pelo que eu entendi a briga é séria . Segundo ele, os dois subiram no bonde rumo ao sucesso juntos. Mas quando chegou na estação Playboy melancia serpenteou, ou seja, saiu do bonde sorrateiramente sem ao menos se despedir de Créu seu companheiro de viagem. Dias depois para orgulho da mãe que disse que a filha tem o diferencial (e tem mesmo) ela estampava numa das revistas mais badaladas do país o que Deus, a natureza, ou a evolução da poeira cósmica ou todos em comum acordo lhe deram : 1 metro e 21 centímetros de bunda. O sucesso foi tanto que no próximo mês tem melancia de novo. O povo pediu. E como a voz do povo é a voz de Deus: tome melancia. E pensar que melancia quase parou a guerra do tráfico no Chapéu Mangueira quando o boato de uma lipoaspiração se espalhou mais do que ambulante pela Rua do Catete. Os traficantes ficaram tão transtornados que quase aposentaram as armas e correram para a primeira igreja evangélica. Para eles não fazia mais sentido tanto sangue derramado, pessoas feridas mais do que na guerra do Iraque e torturadas mais do que em Serra Leoa se não tivessem o direito de saborear ao menos uma fatia da melancia. Mas a mulher-melancia, como toda rainha, sempre preocupada com o bem-estar dos súditos, levantou do trono andou até a sacada deu uma reboladinha e declarou, revirando os olhos em sincronia com a língua: eu não mexo nela.
Enquanto a mulher melancia vira musa nacional, Monsieur Créu acumula ressentimentos e o tiro come no chapéu mangueira,o nosso estimado governador Sérgio Cabral passeava semana passada de bicicleta pela capital Francesa. E ainda teve a desfaçatez de abrir a boca para dizer que considera extraordinário andar de bicicleta em Paris. Segundo Young, o poder é o pior dos demônios. Estou quase concordando com ele. Como pode o governador do Rio com o semblante tranqüilo como se governasse Zurique ou Estocolmo dizer que é extraordinário passear de bicicleta, em Paris, como se o Estado onde ele foi eleito para governar não estivesse em guerra ? O que aconteceu quinta-feira, à noite , no Leme foi aterrorizante. Dezenas de pessoas que estavam aproveitando o feriado, passeando na Av. Atlântica, se jogaram no chão devido ao tiroteio. O último quiosque da praia ficou perfurado e no dia seguinte as crianças brincavam de catar bala na areia como na minha infância eu e meu irmão brincávamos de catar conchinha. Como se fossem atores de um filme de bangue-bangue ou como se no Estado do Rio de Janeiro não existisse o poder público, traficantes foram para o ponto mais alto do morro e metralharam a Avenida Atlântica, transformando o bairro do Leme numa verdadeira praça de guerra, como se a vida das pessoas valesse menos que um palito de fósforo queimado.
Algum assessor do Sérgio Cabral precisa dizer a ele que não estamos interessados no projeto que a prefeitura de Paris desenvolveu para estimular o uso de bicicletas por melhor que ele seja. Alguém assessor precisa dizer a ele que o ponto nevrálgico do Rio é a o tráfico de armas e de drogas, instalados nos bolsões de miséria onde o poder público é ausente, localizado nas favelas e nas periferia do Rio. Se eu bem entendi o Governador é o comandante que foge da guerra. Ou seja, ele quer comer o peixe mas não quer molhar os pés. Até a mulher melancia que só faz rebolar sabe que isso é impossível. Ela sabe que se não cuidar do que Deus lhe deu seus súditos irão abandoná-la. Mas o governador parece não saber que deve explicações à população que depositou nele, através dos votos, confiança e esperança por dias melhores. Alguém precisa urgentemente dizer a ele que para governar é preciso comandar. E para comandar é preciso tomar decisões e estar presente nos momentos caóticos. Depois de tantos anos na política Sérgio Cabral ainda não aprendeu essa lição.
Isso sim, Governador, é extraordinário.
Escrito por Mônica Campos às 23h14
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O amor consiste na graça divina de parar o tempo e nada
mais se pode dizer sobre ele.
Inês Pedrosa
Nas Tuas Mãos
Glória Maria ao ser entrevistada pela Fernanda Young disse que fez uma tatuagem com apenas duas palavras: amor incondicional. Em geral, não gosto de mensagens tatuadas. São tolas, poluentes e antiestéticas. Mas dessa eu gostei. O que não é o desejo humano em busca do amor, esse elixir miraculoso capaz de nos levar a espaços siderais inimagináveis. Alguém já disse que o amor resgata a idéia do paraíso. Sim, queremos o paraíso prematuro aqui na terra. Acho que nem um monge com anos de meditação escapa desse desejo. E amar e ser amado incondicionalmente é uma sensação paradisíaca. Mas dá um trabalho..... Foi esse o comentário da Fernanda Young ao confirmar que o marido é o seu amor incondicional. Concordo com ela. Amor incondicional é o oposto do almanaque de cinderela que nos entorpece com a cruel idéia da existência de alguém que caiba nos nossos sonhos. O amor incondicional contorce e subverte a gramática daquilo que um dia aprendemos a chamar de amor, nos obrigando a conhecer o lado mais sombrio do outro e aceitá-lo com toda a sua pequeneza e não apesar dela, nos ensinando que é impossível amar sem esbarrar com o que há de pior em nós e no outro: egoísmo, sentimento de posse , arrogância e rancor.
Mas é doloroso nos prepararmos para um feriado ensolarado e ter que ficar de castigo, em casa, por causa de uma trovoada capaz de fazer até a mais segura e analisada das mulheres correr para debaixo da cama como se fosse uma criança de colo. É assim que deve estar se sentindo a namorada do Ronaldo que com esse episódio nos lembrou o que há muito sabemos, mas fingimos não saber: a sexualidade humana nem sempre cabe dentro das linhas da cartilha do matrimônio. Nessas horas percebemos o quanto é difícil vivenciar o amor incondicional. E o pior é que somos ( lá no fundo, bem lá no fundo, naquele zona onde o comodismo e nem a ingenuidade encontram abrigo ) pessoas inteligentes para saber que isso pode ser uma constatação e não uma idéia pessimista ou uma atitude de descrença em relação ao casamento. Os animais se acasalam para procriar. Nós, há muito, transpusemos esse estágio e buscamos o prazer não só dentro das quatro paredes do nosso ninho de amor , mas, às vezes, dentro de um escuro, tortuoso e perigoso labirinto.
E quando o prazer de um estraçalha o outro é que o bicho pega. Temos a sensação de que o amor foi lançado, como se fosse jornal velho, para dentro de uma fogueira. Mas o que nos conforta é saber que esse é um sentimento naturalmente incombustível e por isso não queima que nem carvão em brasa. Ou será que em algumas situações ele entra em combustão ? A namorada do Ronaldo que o diga. Não queria estar na pele dela. Essa sim, é uma prova de fogo fenomenal (desculpe o trocadilho, mas é inevitável) e nada mais tenho a dizer sobre esse episódio. Mas gosto sempre de lembrar que o fogo, esse elemento fascinante que explode em luz e calor , assim como nos destrói, também nos alenta , nos alimenta e nos revigora. . É a minha esperança.
E a minha tatuagem.
Escrito por Mônica Campos às 07h49
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MOMENTO REFLEXÃO
O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem
João Guimarães Rosa
Escrito por Mônica Campos às 14h55
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Procrusto
Um homem encontra-se preso em Alagoas há cinco meses por que roubou um queijo. E os promovedores da festança do cartão corporativo estão de ressaca. . Uma ministra se demitiu por que na certa considera o chá caseiro como sendo o melhor remédio para dor de cabeça. Mas seus coleguinhas querem mais. Compreensível. Fazer festa com dinheiro alheio deve ser uma delícia. Uma vez, há muitos anos, quando o código de barra ainda era uma fantasia de cientista maluco, saí de uma loja com um creme para cabelo nas mãos. Só ao chegar em casa me dei conta que não havia pago. Confesso que meus neurônios balançaram ao imaginar a possbilidade de poder desfrutar do perverso prazer de usufruir de algo que eu precisava sem mexer no bolso. E me senti muito capaz como aquilo me conferisse um poder que me transformaria, em segundos, numa imperadora. Mas como sempre tive medo do demônio do poder que é o pior demônio que o ser humano pode enfrentar, no dia seguinte, a caminho da escola, devolvi o creme. Fiz isso não por que eu seja o baluarte da honestidade, não foi o valor monetário que me fez devolvê-lo, mas sim, a excitação que a situação havia provocado. Por essa experiência, vivida na infância, quando um frasco de creme para cabelo usurpado me fez sentir a Cleópatra dá para imaginar o perigo que é ser dono de um cartão corporativo, embora argumento nenhum justifique o roubo público e muito menos a impunidade.
Os juristas dizem que todos são iguais perante à lei. Mas infelizmente alguns estão acima dela. Por isso nenhum agente público do governo Lula vai parar na cadeia por ter usado o cartão indevidamente. Mas um homem está preso por ter roubado um queijo. Por essas distorções e tantas outras, provocados pela força do capital e pelo abuso do poder , como diria o velho companheiro Lula-lá ( Jung tem um frase muito intrigante : a pessoa se converte-se sempre na coisa que ela mais combate) o comandante Fidel Castro há 49 anos proclamou-se como sendo o salvador de Cuba. Fidel, embora seja humano, feito de carne e osso como eu e você, é quase uma entidade. Não importa o que achamos dele, mas é incontestável que Fidel é dotado de uma força de búfalo. Poucos homens vêm ao mundo com a capacidade de lutar contra um império como ele veio. Poucos homens despertam tanto ódio e tanta paixão como ele desperta. E poucos homens conseguem se manter tantos anos no poder sem que a cabeça role, guilhotina a baixo, como ele conseguiu. Mas quem estudou um pouco de história sabe que Stálin nos deixou um grande ensinamento: o comunismo sempre conduz à ditadura. Eu sei que essa frase dói nos ouvidos de muita gente que sonhou de olhos e corações abertos com um mundo menos desigual, menos violento e menos injusto. Fidel também deve ter sonhado com esse mundo. Mas tornar sonho em realidade é o grande desafio do ser humano. E como todos os grandes líderes ele não podia errar por que um salvador não erra. Mas ele é humano e cometeu muitos erros e o mais grave talvez tenha sido encontrar desculpas para justificar atrocidades que um dia virão à tona.
Fidel me lembra Procrusto, o Esticador, que não aceitava o fato dos baixinhos serem subjugados pelos gigantes. Procrusto, um gigante idealista, queria defender os baixinhos e teve uma idéia: construiu duas camas sendo uma para os gigantes e outras para os não- gigantes. Na cama para os baixinhos ele deitava os gigantes e na cama para os gigantes ele deitava os baixinhos. Sendo que na primeira ele cortava as pernas dos gigantes e na segunda esticava os baixinhos. Quando Palas Atenas lhe perguntou por que fazia aquilo, ele respondeu: A justiça exige que todos os homens sejam iguais. Cortando a perna dos gigantes, eles se tornam tão pequenos quanto os não gigantes. Quanto aos não gigantes eu os estico até ficarem do tamanho dos gigantes. Tal operação torna ambos iguais, pois através delas, todos se tornam aleijados.E se eles morrerem por causa dessas mutilação, ela perguntou ? Continuam iguais, entre si, pois a morte os iguala.
Procrusto continuou torturando e sempre esclarecendo que o fazia em nome da justiça até Teseu chegar e acabar com aquela orgia de desumanização e Procrusto morreu, dizendo “ eu jamais fizera mal algum aos homens”.
Resta saber o que Fidel dirá antes de morrer.
Escrito por Mônica Campos às 15h55
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Pois não há nada oculto que não seja
descoberto e nada há escondido que
não venha a lume
Evangelho Segundo São Marcos
Essa semana a nadadora Joana Maranhão revelou que fora molestada na infância. E não está sozinha. Uma ex-nadadora também contou ter sido molestada por esse homem que ainda trabalha como professor de Educação Física, em Recife. Aos olhos da lei, o crime já prescreveu ou decaiu como preferem os juristas ( seis meses depois da mulher ter atingido a maioridade cai o direito de queixa, tendo em vista esse ser um crime tipificado contra o menor ) mas, para Joana, como para a moça que optou pelo anonimato , assim como para todas as mulheres que na infância foram vítimas de um abusador , esse crime não tem prazo para prescrever e por mais forte que seja a estrutura emocional da mulher acredito que nunca caia no esquecimento.
Muitos anos são necessários e às vezes nem todas as horas, minutos e frações de segundos da vida de uma mulher são suficientes para enxergar uma luz no fim do túnel dentro dessa sufocante masmorra, onde ela fora aprisionada, ainda na infância. Como eu nunca passei por isso sinceramente nem sei o que precisa ser feito para equacionar anos de angústia e revolta, abafados pela vergonha de ter sido tocada pelas mãos sujas de um molestador. Sem falar na sensação de impotência por não ter tido força suficiente para se livrar daquelas mãos. E o que dizer da fúria crônica por ter sido torturada por mãos que um dia lhe prometeram afago, carinho e proteção ? E como resolver a solidão, essa cratera aberta no peito, por não ter sido retirada das garras do predador ?
Ou seja, ser molestada na infância não é bolinho. É uma violência muda, cruel, bruta e sombria. Nem encontro palavras precisas para descrever esse mal que atropela e esmaga a vida de milhares de meninas, mundo a fora. Um molestador infantil é o ladrão mais covarde e pérfido que existe. É aquele diabo recluso com vestes de anjinho que fica espreitando a vida da menina, esperando uma oportunidade para dar o bote. E quando ataca, saqueia o que temos de mais precioso : nossa energia vital, nossa alma e a fé que temos na vida. Ou seja, o infeliz estraga as quatro estações da alma de qualquer criança.
Em quase todas as estórias sobre violência sexual infantil há um dado comum: o molestador é depositário-fiel da confiança da família. E geral, é um cara educado, gentil e afável. É aquele sujeito que se oferece para pegar a filha da vizinha na escola. É aquele sujeito que domingo à tarde, debaixo de um sol escaldante, se oferece para levar as crianças para comer algodão doce no parquinho do bairro. É aquele sujeito que se propõe a visitar creches comunitárias em confins que a maioria de nós nem sonharia em colocar os pés. Por isso é quase impossível identificá-lo por que nem todos os homens gentis são pedófilos. E é nesse paradoxo que mora o perigo. Como saber quem é quem ?
A ex- nadadora que optou pelo anonimato disse: “ por ele ser tão amigo dela ( sua mãe ) pensei que a doente da estória fosse eu”. É aquela velha estória do escravo que de tanto ouvir que ele veio ao mundo para ser cativo ele acha que a culpa pela existência da escravidão é dele por ter nascido e não do senhor que o escraviza. Ou seja, a violência sexual infantil é extremamente perversa por que as crianças confiam nos amigos dos seus pais.
Alguém já disse que não somos anjos e nem demônios. Somos humanos. Eu sei que a carne é fraca e a sexualidade humana nem sempre atende aos apelos morais. Mas sinceramente eu duvido da capacidade de recuperação de um molestador e desejo que todos eles sejam condenados e passem anos padecendo numa prisão e por mim poderiam ser jogados num tanque de fogo. Soube que esse verdugo que maltratou a Joanna Maranhão e a outra moça ( e também deve ter maltratado outras ) é casado . Agora me veio uma pergunta que não que se calar. O que se passa na cabeça de uma mulher ao descobrir que o homem com quem ela vive e é pai de seus filhos é um abusador de menores ? Sinto dor na espinha só de imaginar.
Escrito por Mônica Campos às 13h16
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ALCUNHA
Era sábado de carnaval. O despertador do celular tocou às 9:00h para lembrá-la do Bola Preta. Incrédula, olhou para o relógio que ficava na cabeceira da cama e duvidou da posição dos ponteiros. Mas bastou uma olhada para a persiana que embora fechada, sobrava uma frestinha, denunciando que o sol já nascera há horas. A cabeça latejava tanto que parecia que um pica-pau havia passado a noite, perfurando sua testa, à procura de algum inseto. Puxou o travesseiro para se levantar. Hábito herdado de uma brincadeira de infância que o pai fazia para acordá-la. Mas desistiu. Corria o risco de explodir o cérebro.
Essa imagem lhe perseguia desde adolescente: cérebro se espatifando como se um terremoto tivesse lhe atingido e os neurônios, escorrendo pelo quarto, passando por debaixo da porta, em fila indiana, como se fossem formiguinhas-operárias , mas ao invés de carregarem alimento, transportariam seus segredos até o ouvido dos pais, onde sua faceta irresponsável entraria pelos tímpanos deles , expulsando a imagem de filha perfeita tão bem construída por ela, ao longo dos anos. Nesse momento, sua cabeça coçou, como acontecia aos 20 anos quando inventava mentiras e desculpas disparatadas para esconder do pai suas estripulias. Nada que uma menina da sua idade nunca tivesse feito: beber até o estômago vomitar um basta, pegar carona com caras quase-desconhecidos, seduzir o professor da faculdade por puro esporte e transar com o músico da banda preferida para provocar as amigas.
Filha de pais-quase-avós entendeu sua estória quando, sua madrinha no dia da primeira comunhão, com os olhos marejados de lágrimas revelou que ela era fruto de um milagre e estrela-guia do pai, tendo em vista a mãe já ter um filho adulto de outro casamento. Embora não trabalhasse no IBGE tinha certeza que poucas pessoas vinham ao mundo quando o pai já era um sexagenário e os ovários da mãe quase inativos. Por isso, ao entrar na adolescência, tomou para si, como se fosse uma missão sagrada, preservar os pais das suas irresponsabilidades juvenis. Seu pai morreu, aos 85 anos, achando que ela era a prima-irmã da Virgem Maria e só a chamava de meu anjinho. Sentia muita falta dele e tinha certeza que homem nenhum ia amá-la como ele a amou, até por que no seu currículo só constavam homens imaturos, ególatras e despreparados para dar e receber amor.
Para elaborar a perda do pai e a falta de fé nos três bilhões de homens que existem sob a face da terra, deitou no divã e a terapeuta com aquela segurança que só os que trocaram Deus por Freud possuem, elaborou um diagnóstico preciso: síndrome-do- paraíso- paterno-perdido. Ou seja, não queria que homem nenhum substituísse a imagem do pai. Não queria que o rei fosse deposto. Cansada do lero-lero edipiano , deu um cheque-despedida à terapeuta e aos 28 anos , morando sozinha, já que desde a morte do pai, a mãe se mudara para a casa de parentes , em Niterói , decidiu que ia seguir a vida, indo ao encontro do que já aceitara como sendo o seu destino: o inferno das paixões mal resolvidas. Meu amor, qual é o seu problema? Deveria ter feito essa pergunta quando Daniel, na véspera, deu uma brochada instantânea, como ela nunca imaginara ser possível acontecer com um rapaz de 24 anos , espirrando testosterona até pelas orelhas. Daniel fazia estágio na sua firma. Futuro arquiteto com uma carreira nada promissora, compensava, mesmo sem saber, a falta de talento profissional por um par de olhos verdes fascinantes e um tórax malhado e depilado como os meninos da sua geração. E Isabel se divertia ( continua...)
Escrito por Mônica Campos às 22h42
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com o p com o português preguiçoso do rapaz, cujo vocabulário era restrito a poucos adjetivos como sinistro e beleza. Embora estivesse de olho nele, desde o primeiro instante que o vira , mantinha uma distância exigida, ao menos em tese, pela hierarquia profissional, tendo em vista ela ser uma das sócias da firma e ele filho da prima de uma funcionária. Mas quando se despediram, ontem à tarde, não se conteve, afinal era carnaval:
- Isabel, tem certeza que você quer ir naquele bar, em frente às escadarias que vai dar em Santa Teresa?
- Tenho. Algum problema?
- Para mim não. Mas lá só tem cachaceiro e maconheiro.
- Uma combinação que dá barato e não mata ninguém.
- Beleza. Mas achei que a sua parada fosse vinho. .
- Hoje é carnaval, meu amor, e não 14 de julho.
- Esse é o dia do vinho?
- Não é. Mas poderia ser.
Mas, a sexta-feira de carnaval, que começara com samba- de- raiz , cerveja gelada e beijos ardentes com direito à sacanagem no banco traseiro do táxi, sem falar numa proposta de ménage- a -trois por parte de uma amiga dela , terminou num frustrante zero-a- zero. Logo ela, que arquitetava seus encontros com a mesma minúcia que elaborava seus projetos para levantar um prédio ou reformar um restaurante, não queria passar o carnaval com o peso da frustração que embrulhava mais o estômago do que a mistura de cachaça, cerveja e cigarro que ela havia ingerido na noite anterior. Mas também não queria se mostrar dependente de um cara 10 anos mais novo e que mal sabia conjugar o presente do indicativo do verbo ser. Mas tinha uma certeza: não queria passar o carnaval fantasiada de mulher- abandonada.
Sentindo o mesmo alívio de quem se desfaz de um maço de cigarros para se livrar do vício, jogou o orgulho no lixo e lembrou de uma amiga de faculdade que numa situação análoga a essa( mas não tão grave) lhe diria : liga logo, orgulho só serve para dar pedra nos rins. A lembrança teve um efeito terapêutico e funcionou rápido como uma rajada de soro nas veias:
Daniel, desculpa te acordar ...
- Tá tranqüilo. beleza ?
- Beleza. E aí?
- E aí que hoje tem Bola Preta. Bloco sinistro, antigão né?
- Daniel, eu sei que para homem é muito constrangedor. Você está chateado?
- Cara, sinceridade? Na hora fiquei bolado, mas passou.
- O que houve?
- Cara, vou ser franco com você, só aconteceu isso comigo uma vez, por causa da dengue Saca dengue? Cara, parada muito punk, pensei que eu fosse morrer. Minha namorada veio aqui deitou do meu lado, mas a porra não subia de jeito nenhum. Fiquei boladão e ela saiu daqui batendo porta e xingando o mosquito, mas dois dias depois quando a minha prima veio me visitar transei amarradão.
- Mas você não está com dengue, eu não sou sua namorada e pelo visto não conseguiria realizar essa proeza que a sua prima conseguiu. .
- Você é bem mais gata que ela, Isabel, mas... deixa pra lá .....
- Mas o que houve? Muita droga, Daniel?
- Que nada. Tô limpo geral, essa parada de ecstasy dá cadeia.
-Mas o que houve para você ter bro...
- Maluca, você tava bêbada pra caralho né?
- Um pouco. Mas sabia o que estava fazendo.
Continua.....
Escrito por Mônica Campos às 22h41
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-Mas não sabia o que estava falando.
- Sabia...
- Então, beleza, você sabe o que aconteceu.
- Se soubesse não estaria te ligando.
- Isabel, você quer que eu te diga o quê?
- Daniel eu estou a fim de você há meses.
- Eu também, tava amarradão.
- Amarradão e na hora H brocha
- Você queria o que?
- Queria o que toda mulher quer...
- Beleza. Então na próxima vez me chama de Daniel .
- Ah.. O problema é esse?
- Você acha pouco? Parada sinistra. Aí Isabel, você é muito doida.
- Um apelido Daniel. Uma alcunha, um fetiche.
- Que porra de fetiche mais brochante.
- É que você é muito careta
- Careta é o caralho. Meu nome é Daniel. Como é o que eu vou te comer você me
chamando de Toninho?
- Uma fantasia porra...
- Fantasia nada. Pelo que eu entendi esse cara existe.
- Existiu.
- Existiu por que ? Já morreu?
- Já.
- Que parada punk, . Era teu namorado?
- Não. Era meu pai.
FIM
Escrito por Mônica Campos às 22h40
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Quentinhas em Ordem
Policial sair do restaurante, carregando uma quentinha , é uma cena tão habitual que nem mais comentamos. Não há argumentos para justificar essa vergonha que alguns chamam de cortesia e os mais gentis para não dizer coniventes de brinde. No Brasil, confundimos o público com o privado. Talvez por isso não consigamos sair desse estágio democrático primário, onde achamos que só votar basta. O César Maia riu quando exigimos transparência nas contas do Município. Disse que basta lermos o Diário Oficial. Ironias à parte , até que ele tem razão. Mas ninguém faz isso por dois motivos: primeiro não recebemos essa educação. Na escola não existe aula sobre políticas- públicas. E segundo: é um saco ler aquelas letrinhas miúdas no DO e vamos combinar: é bem mais fácil seguirmos em frente, fingindo que não sabemos que democracia dá trabalho, repetindo aos quatro ventos que esse país não tem jeito e que todo político é ladrão. E quando delegamos esse trabalho de formiguinha-cívica ( que inclui até a insuportável reunião de condomínio ), aos representantes eleitos, em geral, quebramos a cara. Na política e na vida. Votei nele e ele me roubou. Confiei nele e ele me traiu. Infelizmente só somos traídos por quem um dia foi fiel depositário da nossa confiança e do nosso amor. Só somos traídos por quem um dia foi nosso marido, mulher, sócio ou melhor amigo. Talvez esse seja o ponto mais delicado das relações humanas. Mas, enfim, chegamos a um ponto que não sabemos mais o que fazer e acho perigoso esse discurso, cada vez mais em moda, que nos aponta como sendo os responsáveis pelos políticos que elegemos. Me lembra aquele papo que a mulher é culpada pelo estupro. Às vezes, somos omissos, seja por preguiça, falta de hábito ou consciência, mas, na maioria das vezes, por mais que queiramos participar e nos organizar batemos de frente com uma estrutura estatal mais intransponível do que um bloco de aço. No Brasil, não é fácil acompanhar as propostas de um vereador, de um deputado, ou de um prefeito. É tanta emenda, é tanto projeto, é tanta burocracia que esgota a paciência de qualquer candidato a santo e acaba com as forças até daqueles que vieram ao mundo, dotados de uma energia de Hércules. Sem falar que estamos sitiados por essa violência que eu não me canso de dizer que enche o bolso de uma gente que tem uma carinha angelical e uma alma beligerante. Escrevi esse desabafo por que uma imagem, essa semana, grudou na minha cabeça mais do que hera na parede .Essa imagem foi a foto de um policial , carregando um engradado de cerveja, roubado de um caminhão da Ambev. Parodiando Caetano, alguma coisa está fora da ordem. Um policial roubar seja lá a mercadoria que for é inaceitável , mas, engradado de cerveja chega a ser tragicômico. Com uma polícia , formada por pedintes de quentinha ou ladrões de cerveja ( existem raras e honrosas exceções ) é difícil acreditar até na força do voto. Machado de Assis escreveu que ninguém faz revolução depois do jantar. Não é à toa que o Cesar Maia ri da gente. Ele sabe que nosso estômago está cheio.
A distribuição de quentinhas não sai da ordem.
Escrito por Mônica Campos às 11h13
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Rien ne rend l avenir plus rose que de le regarder à
travers un verre de Chabertin
Alexandre Dumas
Acho que a maioria de nós queremos o que ele ( Dumas ) quis: que o mundo seja cor-de-rosa. Uns precisam de um copo de vinho rosé , outros de um copo de cerveja e os mais evoluídos de copo nenhum. Segundo os cientistas , essa gente incansável que passa a vida, examinando tubos de ensaio para revelar enigmas indizíveis e mistérios indecifráveis, até no interior da mais bruta das nossas células a cor rosa significa delicadeza, carinho e amor . Não sei como os caras chegaram a essa conclusão, mas sob à luz da ciência a cor- rosa, a preferida pelas meninas quando começam a seduzir os meninos e pelas mamães para decorar o berço das filhotas e vira e mexe alvo de críticas por parte das viúvas da Simone de Beauvoir, significa o pedacinho do céu azul paradisíaco, iluminando nossos corações.
A Ao longo do ano de 2.007, graças a Deus, a vida se apresentou cor-de-rosa muitas vezes para mim. Adoro final de ano. Tem gente que acha esse papo de ano-novo uma besteira ou uma ilusão, argumentando que o tempo é relativo e há ainda os mais cultos ( ou chatos ) que lembram que para os faraós o ano iniciava em 29 de agosto. Mas eu sigo o calendário dos hebreus e fim de ano para mim é uma época muito especial. Limpo armários, rasgo papel e me desfaço de objetos e roupas que não me dizem mais nada. Acendo incenso, velas e choro bastante. E também dou muita risada, telefonemas e abro o meu arquivo de fotos. Relembro viagens feitas, aniversários comemorados e casamentos realizados. Na sua coluna, no Jornal O Globo, Joaquim Ferreira dos Santos pediu para que os leitores s lhe enviassem fotos que mais marcaram suas vidas durante o ano de 2.007. Eu não mandei nenhuma, mas enviaria três e vou falar sobre elas em ordem cronológica, por que elas têm uma importância tão grande na minha vida que seria uma injustiça comigo mesma eu enumerá-las afetivamente.
A primeira é uma foto minha e do meu marido na Chapada da Diamantina que eu considero como sendo um dos lugares mais bonitos desse país e como eu sou exagerada vou arriscar a dizer: a Chapada é um dos lugares mais bonitos do planeta . Aquela parte da terra é cor-de-rosa e bonita de doer. A segunda é uma foto tirada durante a cerimômia de casamento da minha amiga Kátia que me fez um convite muito especial e original : pediu para eu escrever um texto para celebrar a sua união com o Mário. Depois de noites insones o texto saiu e eu chorando mais do que ela tive o prazer de desejar do fundo do meu coração felicidades para o casal e uma união bem saudável, alegre criativa e frutífera . E a 3ª foto sou eu com os meus colegas de escola , do aplicação da UERJ . Eu não os via há mais de 20 anos e nos reencontramos para comemorar os 50 anos do colégio. Sempre fui avessa à nostalgia , mas esse reencontro foi iluminado. Encontrar pessoas que durante anos, juntas, se prepararam para chegar até aqui, ( na vida adulta ) foi extremamente emocionante. De moleques e molecas que éramos, preocupados com a prova de matemática, português e ciências , hoje somos , adultos casados, separados, pais de famílias, mães apaixonadas pelos filhotes , profissionais liberais, públicos, executivos , administradores de empresas, de famílias e de vidas por que nessa altura do campeonato ninguém fecha a porta de casa sem precisar dar satisfação a alguém. É bebe recém- nascido chorando , filho adolescente enchendo o saco , pais idosos nos pedindo atenção , compromissos profissionais na agenda e contas pipocando no final do mês. Mas esse reencontro, regado a incontáveis chopps , abraços apertados e sorrisos emocionados ficou marcado pelas palavras afetuosas sopradas do fundo do coração . É nesse órgão que reside a nossa memória mais vital que é a memória do carinho, do afeto, da lealdade, da amizade e do amor.
Sem esses nutrientes nenhum ser humano é capaz de perceber que o mundo de vez em quando pode ser rosa ou violeta e muito menos é capaz de sentir o aroma inebriante do jasmim ou ofertar uma margarida à pessoa amada ou admirar uma plantação de girassol.Eu sei que muitas vezes a vida é punk, injustiças ocorrem a todo instante, mas apesar de toda a violência que nos cerca e de todos os medos que nos espreitam , façamos com que a vida nos apresente cada vez mais cor -de –rosa independente de estarmos inebriados ou não por uma taça de vinho. É uma boa e delicada tarefa para ser exercida nesse ano que se inicia. Um beijo no coração.
Feliz 2.008 para todos nós.
Escrito por Mônica Campos às 08h22
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