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Quentinhas em Ordem
Policial sair do restaurante, carregando uma quentinha , é uma cena tão habitual que nem mais comentamos. Não há argumentos para justificar essa vergonha que alguns chamam de cortesia e os mais gentis para não dizer coniventes de brinde. No Brasil, confundimos o público com o privado. Talvez por isso não consigamos sair desse estágio democrático primário, onde achamos que só votar basta. O César Maia riu quando exigimos transparência nas contas do Município. Disse que basta lermos o Diário Oficial. Ironias à parte , até que ele tem razão. Mas ninguém faz isso por dois motivos: primeiro não recebemos essa educação. Na escola não existe aula sobre políticas- públicas. E segundo: é um saco ler aquelas letrinhas miúdas no DO e vamos combinar: é bem mais fácil seguirmos em frente, fingindo que não sabemos que democracia dá trabalho, repetindo aos quatro ventos que esse país não tem jeito e que todo político é ladrão. E quando delegamos esse trabalho de formiguinha-cívica ( que inclui até a insuportável reunião de condomínio ), aos representantes eleitos, em geral, quebramos a cara. Na política e na vida. Votei nele e ele me roubou. Confiei nele e ele me traiu. Infelizmente só somos traídos por quem um dia foi fiel depositário da nossa confiança e do nosso amor. Só somos traídos por quem um dia foi nosso marido, mulher, sócio ou melhor amigo. Talvez esse seja o ponto mais delicado das relações humanas. Mas, enfim, chegamos a um ponto que não sabemos mais o que fazer e acho perigoso esse discurso, cada vez mais em moda, que nos aponta como sendo os responsáveis pelos políticos que elegemos. Me lembra aquele papo que a mulher é culpada pelo estupro. Às vezes, somos omissos, seja por preguiça, falta de hábito ou consciência, mas, na maioria das vezes, por mais que queiramos participar e nos organizar batemos de frente com uma estrutura estatal mais intransponível do que um bloco de aço. No Brasil, não é fácil acompanhar as propostas de um vereador, de um deputado, ou de um prefeito. É tanta emenda, é tanto projeto, é tanta burocracia que esgota a paciência de qualquer candidato a santo e acaba com as forças até daqueles que vieram ao mundo, dotados de uma energia de Hércules. Sem falar que estamos sitiados por essa violência que eu não me canso de dizer que enche o bolso de uma gente que tem uma carinha angelical e uma alma beligerante. Escrevi esse desabafo por que uma imagem, essa semana, grudou na minha cabeça mais do que hera na parede .Essa imagem foi a foto de um policial , carregando um engradado de cerveja, roubado de um caminhão da Ambev. Parodiando Caetano, alguma coisa está fora da ordem. Um policial roubar seja lá a mercadoria que for é inaceitável , mas, engradado de cerveja chega a ser tragicômico. Com uma polícia , formada por pedintes de quentinha ou ladrões de cerveja ( existem raras e honrosas exceções ) é difícil acreditar até na força do voto. Machado de Assis escreveu que ninguém faz revolução depois do jantar. Não é à toa que o Cesar Maia ri da gente. Ele sabe que nosso estômago está cheio.
A distribuição de quentinhas não sai da ordem.
Escrito por Mônica Campos às 11h13
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