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                                   ALCUNHA

 

 

      Era sábado de carnaval. O despertador do celular tocou às 9:00h para lembrá-la do Bola Preta. Incrédula, olhou para o relógio que ficava na cabeceira da cama e duvidou da posição dos ponteiros. Mas bastou uma olhada para a persiana que embora fechada, sobrava uma frestinha, denunciando que o sol já nascera há horas. A cabeça latejava tanto que parecia que um pica-pau havia passado a noite, perfurando sua testa, à procura de algum inseto. Puxou o travesseiro para se levantar. Hábito herdado de uma brincadeira de infância que o pai fazia para acordá-la. Mas desistiu. Corria o risco de explodir o cérebro.

                     Essa imagem lhe perseguia desde adolescente: cérebro se espatifando como se um terremoto tivesse lhe atingido e os neurônios, escorrendo pelo quarto, passando por debaixo da porta, em fila indiana, como se fossem formiguinhas-operárias , mas ao invés de carregarem alimento, transportariam seus segredos até o ouvido dos  pais, onde sua faceta irresponsável entraria pelos tímpanos deles , expulsando a imagem de filha perfeita tão bem construída por ela, ao longo dos anos.  Nesse momento, sua cabeça coçou, como acontecia aos 20 anos quando inventava  mentiras e desculpas disparatadas    para  esconder do pai suas estripulias. Nada que uma menina da sua idade nunca tivesse feito: beber até o estômago vomitar um basta, pegar carona com caras quase-desconhecidos, seduzir o professor da faculdade por puro esporte e transar com o músico da banda preferida  para provocar as amigas.

                     Filha de pais-quase-avós entendeu sua estória quando, sua madrinha no dia da primeira comunhão, com os olhos marejados de lágrimas revelou  que ela era fruto de  um milagre e  estrela-guia do pai, tendo em vista a mãe já ter um filho  adulto de outro casamento. Embora não trabalhasse no IBGE tinha certeza que poucas pessoas vinham ao mundo quando o pai já era um sexagenário e os ovários da mãe quase inativos. Por isso, ao entrar na adolescência, tomou para si,  como se fosse uma  missão sagrada, preservar  os pais das suas irresponsabilidades juvenis. Seu pai morreu, aos 85 anos, achando que ela era a prima-irmã da Virgem Maria e só a chamava de meu anjinho. Sentia muita falta dele e tinha certeza que homem nenhum ia amá-la como ele a  amou, até por que no seu currículo só constavam homens imaturos, ególatras  e despreparados para dar e receber amor.

                    Para elaborar a perda do pai e a falta de fé nos três bilhões de homens que existem sob a face da terra, deitou  no divã e a  terapeuta com aquela segurança que só os que  trocaram Deus por Freud possuem,  elaborou um diagnóstico  preciso:  síndrome-do- paraíso- paterno-perdido. Ou seja, não queria que homem nenhum substituísse a imagem do pai. Não queria que o rei fosse deposto. Cansada do lero-lero edipiano , deu um cheque-despedida à terapeuta e aos  28 anos , morando sozinha,  já que desde a morte do pai, a mãe se mudara para a casa de  parentes , em  Niterói , decidiu que ia seguir a vida,  indo ao encontro do que já aceitara  como sendo o seu destino:  o inferno das paixões mal resolvidas.

                    Meu amor, qual é o seu problema? Deveria ter feito essa pergunta quando Daniel, na véspera, deu uma brochada instantânea, como ela nunca imaginara  ser possível acontecer com um rapaz de 24 anos , espirrando  testosterona até pelas  orelhas. Daniel fazia estágio na sua firma. Futuro  arquiteto com uma carreira  nada promissora, compensava, mesmo sem saber,  a falta de talento profissional por um par de olhos verdes fascinantes e um tórax malhado e depilado como os meninos da sua geração. E Isabel se divertia ( continua...)

Escrito por Mônica Campos às 22h42
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com o p   com o português preguiçoso do rapaz, cujo vocabulário era restrito a poucos adjetivos como sinistro e beleza.  Embora estivesse de olho nele, desde o primeiro instante que o vira , mantinha uma distância exigida, ao menos em tese,  pela hierarquia profissional,  tendo em  vista ela ser uma das sócias da firma e ele  filho da prima de uma funcionária.  Mas quando se despediram, ontem à tarde, não se conteve, afinal era carnaval:

            - Isabel, tem certeza que você quer   ir naquele bar, em frente às escadarias  que vai  dar em Santa Teresa?

            - Tenho. Algum problema?

            - Para mim não. Mas lá só tem cachaceiro e maconheiro.

            - Uma combinação que dá barato e não mata ninguém.

            - Beleza. Mas achei que a sua parada fosse vinho. .

            - Hoje é carnaval, meu amor, e não 14 de julho.

            - Esse é o dia do vinho?

            - Não é. Mas poderia ser.

                     Mas, a sexta-feira de carnaval, que começara com samba- de- raiz , cerveja gelada e beijos ardentes com direito à sacanagem no banco traseiro do táxi, sem falar numa proposta de ménage- a -trois por parte de uma amiga dela ,  terminou num frustrante zero-a- zero.  Logo ela, que arquitetava seus encontros com a mesma minúcia que elaborava seus projetos para levantar um prédio ou reformar um restaurante, não queria passar o carnaval com o peso da frustração que embrulhava mais o estômago do que a mistura de cachaça, cerveja e cigarro que ela havia ingerido na noite anterior. Mas também não queria se mostrar dependente de um cara 10 anos mais novo e que mal sabia conjugar o presente do indicativo do verbo ser. Mas tinha uma certeza: não queria passar o carnaval fantasiada de mulher- abandonada.

                    Sentindo o mesmo alívio de quem se desfaz de um maço de cigarros para se livrar do vício, jogou o orgulho no lixo e lembrou de uma amiga de faculdade que numa situação análoga a essa( mas não tão grave)  lhe diria :  liga logo, orgulho só serve para dar pedra nos rins. A lembrança  teve um efeito terapêutico e funcionou rápido como uma rajada de soro nas veias:

Daniel,  desculpa te acordar ...

- Tá tranqüilo.  beleza ?

- Beleza. E aí?

- E aí que hoje tem Bola Preta. Bloco sinistro, antigão né?

- Daniel, eu sei que para homem é muito constrangedor. Você está chateado?

- Cara, sinceridade? Na hora fiquei bolado, mas passou.

- O que houve?

- Cara, vou ser franco com você, só aconteceu isso comigo uma vez, por causa da  dengue  Saca dengue? Cara, parada muito punk, pensei que eu fosse morrer.  Minha namorada veio aqui deitou do meu lado, mas a porra não subia de jeito nenhum. Fiquei boladão e ela  saiu daqui batendo porta e xingando o mosquito, mas  dois dias depois quando a minha prima veio me visitar transei amarradão.

- Mas você não está com dengue, eu não sou sua namorada e pelo visto não conseguiria    realizar essa proeza que a sua prima conseguiu. .

- Você é bem mais gata que ela, Isabel, mas... deixa pra lá .....

- Mas o que houve? Muita droga, Daniel?

- Que nada. Tô limpo geral, essa parada de ecstasy dá cadeia.

-Mas o que houve para você ter bro...

- Maluca, você tava bêbada pra caralho né?

- Um pouco. Mas sabia o que estava fazendo.

      Continua.....



Escrito por Mônica Campos às 22h41
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-Mas não sabia o que estava falando.

- Sabia...

- Então, beleza, você sabe o que aconteceu.

- Se soubesse não estaria te ligando.

- Isabel, você quer que eu te diga o quê?

- Daniel eu estou  a fim de você há meses.

- Eu também, tava amarradão.

- Amarradão e  na hora H brocha

- Você queria o que?

- Queria o que toda mulher quer...

- Beleza. Então na próxima vez me chama de Daniel .

- Ah.. O problema é esse?

- Você acha pouco? Parada sinistra. Aí Isabel, você é muito doida.

- Um apelido Daniel. Uma alcunha, um fetiche.

- Que porra de fetiche mais brochante.

- É que você é muito careta

 - Careta é o caralho. Meu nome é Daniel. Como é o que eu vou te comer você me

   chamando de Toninho?                            

- Uma fantasia porra...

- Fantasia nada. Pelo que eu entendi esse cara existe.

- Existiu.

- Existiu  por que ? Já morreu?

- Já.

- Que parada  punk, . Era teu namorado?

- Não. Era meu pai.

 

                                 FIM



Escrito por Mônica Campos às 22h40
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