Pois não há nada oculto que não seja
descoberto e nada há escondido que
não venha a lume
Evangelho Segundo São Marcos
Essa semana a nadadora Joana Maranhão revelou que fora molestada na infância. E não está sozinha. Uma ex-nadadora também contou ter sido molestada por esse homem que ainda trabalha como professor de Educação Física, em Recife. Aos olhos da lei, o crime já prescreveu ou decaiu como preferem os juristas ( seis meses depois da mulher ter atingido a maioridade cai o direito de queixa, tendo em vista esse ser um crime tipificado contra o menor ) mas, para Joana, como para a moça que optou pelo anonimato , assim como para todas as mulheres que na infância foram vítimas de um abusador , esse crime não tem prazo para prescrever e por mais forte que seja a estrutura emocional da mulher acredito que nunca caia no esquecimento.
Muitos anos são necessários e às vezes nem todas as horas, minutos e frações de segundos da vida de uma mulher são suficientes para enxergar uma luz no fim do túnel dentro dessa sufocante masmorra, onde ela fora aprisionada, ainda na infância. Como eu nunca passei por isso sinceramente nem sei o que precisa ser feito para equacionar anos de angústia e revolta, abafados pela vergonha de ter sido tocada pelas mãos sujas de um molestador. Sem falar na sensação de impotência por não ter tido força suficiente para se livrar daquelas mãos. E o que dizer da fúria crônica por ter sido torturada por mãos que um dia lhe prometeram afago, carinho e proteção ? E como resolver a solidão, essa cratera aberta no peito, por não ter sido retirada das garras do predador ?
Ou seja, ser molestada na infância não é bolinho. É uma violência muda, cruel, bruta e sombria. Nem encontro palavras precisas para descrever esse mal que atropela e esmaga a vida de milhares de meninas, mundo a fora. Um molestador infantil é o ladrão mais covarde e pérfido que existe. É aquele diabo recluso com vestes de anjinho que fica espreitando a vida da menina, esperando uma oportunidade para dar o bote. E quando ataca, saqueia o que temos de mais precioso : nossa energia vital, nossa alma e a fé que temos na vida. Ou seja, o infeliz estraga as quatro estações da alma de qualquer criança.
Em quase todas as estórias sobre violência sexual infantil há um dado comum: o molestador é depositário-fiel da confiança da família. E geral, é um cara educado, gentil e afável. É aquele sujeito que se oferece para pegar a filha da vizinha na escola. É aquele sujeito que domingo à tarde, debaixo de um sol escaldante, se oferece para levar as crianças para comer algodão doce no parquinho do bairro. É aquele sujeito que se propõe a visitar creches comunitárias em confins que a maioria de nós nem sonharia em colocar os pés. Por isso é quase impossível identificá-lo por que nem todos os homens gentis são pedófilos. E é nesse paradoxo que mora o perigo. Como saber quem é quem ?
A ex- nadadora que optou pelo anonimato disse: “ por ele ser tão amigo dela ( sua mãe ) pensei que a doente da estória fosse eu”. É aquela velha estória do escravo que de tanto ouvir que ele veio ao mundo para ser cativo ele acha que a culpa pela existência da escravidão é dele por ter nascido e não do senhor que o escraviza. Ou seja, a violência sexual infantil é extremamente perversa por que as crianças confiam nos amigos dos seus pais.
Alguém já disse que não somos anjos e nem demônios. Somos humanos. Eu sei que a carne é fraca e a sexualidade humana nem sempre atende aos apelos morais. Mas sinceramente eu duvido da capacidade de recuperação de um molestador e desejo que todos eles sejam condenados e passem anos padecendo numa prisão e por mim poderiam ser jogados num tanque de fogo. Soube que esse verdugo que maltratou a Joanna Maranhão e a outra moça ( e também deve ter maltratado outras ) é casado . Agora me veio uma pergunta que não que se calar. O que se passa na cabeça de uma mulher ao descobrir que o homem com quem ela vive e é pai de seus filhos é um abusador de menores ? Sinto dor na espinha só de imaginar.
Escrito por Mônica Campos às 13h16
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