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quitandadaspalavras


                Não Há Perdão

Há muitos anos li uma notícia que um homem ao entrar em casa e perceber que havia alguém no quarto do filho passou a mão na arma e entrou, atirando para matar. Quando olhou o morto, estirado no chão, viu cravejado de balas como se fosse um rato de bueiro pestilento seu próprio filho que ele supunha estar viajando.  Não faço a menor idéia que fim levou esse pobre homem e sua família. Não sei se um ser humano consegue viver com a alma, banhada por um rio margeado por tanta dor e culpa e poluído por sombrios ressentimentos.  Dizem que Deus dá o cobertor conforme o frio.  Mas não sei se existe alguma maneira de aquecer uma alma congelada por tanta dor.  E sei menos ainda se  a vida faz algum sentido depois de tamanha tragédia. Antes que me perguntem por que a vida tem que fazer sentido respondo que é humano dar sentido a ela. Não seguimos apenas os nossos instintos como os animais. E é isso que nos diferencia deles. Necessitamos dar um sentido a isso que alguns chamam de passagem, outros de aventura e os menos crédulos de acaso cósmico. Questionamos Deus a todo instante, nos angustiamos todos os dias com a nossa finitude e nos revoltamos com a nossa impotência diante de muitas situações.     

 Somos capazes de um monte de coisas que até bem pouco tempo eram inimagináveis. Fazemos mais crianças em laboratório do que bonecas nas fábricas, os cientistas vão à Lua com mais tranqüilidade do que atravessamos  a linha vermelha e falar com a Europa ficou mais rápido do que ser atendida pela operadora do próprio celular. Conquistamos esses feitos. Embora  não  exista uma pessoa que não se pergunte para que serve tanta invenção tecnológica se, às vezes,  agimos como no tempo em que vivíamos dentro das cavernas,  matando o primeiro suspeito de roubar a valiosa caça.  Para que servem  os quilos de sabedoria iluminista que nos asseguram um Estado Democrático de Direito se um homem fardado  mata uma criança por que a confundira com um bandido? Não vamos nos enganar. Se as balas tivessem sido disparadas em direção a um carro cheio de  bandidos estaríamos comemorando. Infelizmente também somos assim. Quando o predador bate a nossa a porta queremos exterminá-lo. Está aí a nossa impotência . Nós nos achamos seres mais inventivos que os  animais. E somos . A tecnologia , as artes, a ciência e a filosofia são uma prova disso.    Mas por que até hoje não conseguimos  inventar uma maneira de viver menos  violenta ? Por que até hoje não conseguimos inventar uma maneira de nos organizarmos onde haja  oportunidades pelo menos para maioria?   E são tantos os porquês que eu paro por aqui.  

  Tem muita coisa dando errado no Rio de Janeiro , mas é um erro perigoso e é cruel ,  acharmos que a solução é matar ou morrer. E infelizmente defendemos esse estado primário e cruel de violência que há muito deveríamos ter ultrapassado.  Antes que eu acabe meu texto- desabafo , escrevi isso só para dizer que  nenhuma criança merece morrer aos três anos de idade assassinada como se fosse um camundongo.   

Não há perdão, Secretário.

 

 



Escrito por Mônica Campos às 22h03
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