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Ouro do Melhor Quilate
Uma marca de cosméticos vende sua imagem com a seguinte frase: você pode ser o quiser. Perfeito. Sabemos que o bom publicitário não é um vendedor , mas um sedutor , uma espécie de Dom Juan do Marketing. E quem não quer ser bonito feliz e bem sucedido? Existem muitas coisas difíceis nessa vida, mas uma das mais difíceis talvez seja nos livrarmos das fantasias que nos entorpecem. E são tantas que daria um livro. Querer é poder, Deus ajuda a quem madruga, amor de mãe é incondicional, criança é pura, quem ama não trai e o amor é para sempre. Agarramos-nos a esses ditados com a mesma força e desespero que um náufrago se agarra a uma tábua no meio do oceano. E não é à toa. A vida não é uma travessia curta e muito menos fácil. Não é um passeio de barco na Ilha Grande e nem sempre o mar está para peixe. Mas vamos navegando. Dias melhores, dias piores, céu azul, nublado, chuva, tempestade e lá vamos nós por que o horizonte é longe. E é lá, no paraíso prometido, onde queremos desembarcar. Ninguém quer ficar abandonado no meio do caminho. Queremos ser recebidos por uma multidão de anjos nos dando boas vindas e nos prometendo uma felicidade mais valiosa que ouro e mais clara que cristal. Mas quem já folheou a bíblia sabe que para entrar na cidade celestial não basta apenas querer. Até por que muitos são os chamados e poucos são os escolhidos e é inevitável no meio da travessia nos confrontarmos com um maremoto. Para uns ele chega aos dez anos através de uma orfandade precoce, para outros aos vinte anos quando o grande amor vai embora, ou aos trinta quando a profissão escolhida não rende dinheiro, aos quarenta quando o casamento desmorona e aos cinqüenta quando o filho adulto não é a réplica da criança genial que um dia ela fora. Mas depois que o maremoto passa o desafio é saber como tratar as feridas. Sim, por que ninguém passa incólume a ele. E só há duas escolhas: ou colocamos um tampão-piedade em cima do ferimento ou o encaramos .
Escrevi tudo isso por que ao ver a Maurren beijar o pódio, antes de subir para receber a medalha de ouro, me emocionei muito e elejo essa como sendo a imagem mais linda desses jogos. E me lembrei que só podemos ser o que queremos quando temos a nobre coragem de mexer nas nossas feridas , arder até a alma virar cinzas e o resto já sabemos. Maurren, ao receber sua medalha, cumpriu o que a psicanálise chama de ato de vontade. E ato de vontade não tem nada a ver com desejos fantasiosos. Fantasia é uma espécie de droga que entorpece e paralisa. É aquela mulher que deseja ter o corpo da Claudia Raia, mas passa a vida, comendo quilos de chocolate na frente da televisão e acredita que um creme anti-celulite vai promover a tão sonhada beleza. O desejo do ato de vontade é o da realização da possibilidade daquilo que aprendemos a chamar de real e não dos quereres infantis de desejar que tudo seja lindo e maravilhoso a todo instante. Maurren conquistou o que ela podia e não apenas o que ela queria. Por que se seguisse somente os seus quereres não teria sido banida das competições por causa de uma pomada. Se seguisse os seus quereres não teria entrado no labirinto infernal e solitário onde fora do dia para a noite jogada. Mas não se perdeu e achou o caminho de volta. E sozinha. Por que nessas horas não existe nada e ninguém que possa nos resgatar. Talvez essa seja a nossa maior provação : aceitar que a vida ( com todos os dissabores e não apesar deles ) é uma escolha individual, interna e solitária. Maurren poderia passar o resto dos seus dias, lamentando a insensibilidade dos que a condenaram por ter feito uso de uma pomada. Poderia passar a vida, contando ao mundo que foi injustiçada pelos invejosos de plantão. E o pior: poderia passar a vida, torturando a filha, afirmando que o mundo é cruel e que nada vale a pena por que o mal sempre vence o bem. Ou seja, poderia virar refém da sua própria piedade, mas resolveu fazer o que poderia ser feito e o melhor : ela sabia que podia.
Voltou a treinar, transformou as mágoas em vontade de viver e o mais bacana : mostrou ao mundo que a vida é um lugar cheio de reais possibilidades e não de bobos quereres . Sem dúvida Maurren é de ouro.
E do melhor quilate.
Escrito por Mônica Campos às 23h12
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