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quitandadaspalavras


               

                                

                    

 

                                 Desabafo  

 

  Não ia falar sobre isso. Até por que a Corai Rónai  escreveu   tudo o que eu queria ter dito na sua coluna, hoje , no O Globo. Mas, por vários motivos,  aqui vai o meu desabafo. Até agora não sei o que considero como sendo mais vergonhoso : o  Gabeira ter sido pego com a mão na botija ou a sua declaração, após o flagrante:

“ erramos  porque consideramos a cota de passagens como propriedade nossa,  embarcando na grande ilusão cultural brasileira que confunde o público com o privado”.  Concordo com ele. Muita gente, nesse país, faz essa confusão, mas um Deputado Federal tem o dever e a obrigação de saber essa diferença. Aliás, cá entre nós, todos nós sabemos. Em geral, ninguém erra ao declarar o imposto de renda a favor do público. Ao esquecer a declaração de um  aluguel  é para favorecer o próprio. Quando alguém fura a fila do SUS é para favorecer algum familiar. E o dinheiro do escândalo das ONGs fantasmas ,  aqui no Rio ,  foi para  o bolso de poucos e não para uma conta- coletiva para fins social.  

    Quando a farinha é pouca meu pirão primeiro. Mas, ao contrário disso, em Brasília,  sobra farinha. O Gabeira sabe disso. E deve ter sido na abundância dessa farinha que ele escorregou ao considerar que ninguém sentiria falta se usasse um pouquinho da farinha para a filha viajar ou para um monge meditar em outras terras. Laranja podre contamina, já dizia minha avó, e ele foi contaminado pela podridão do congresso. Mas isso não é desculpa  por que até onde eu saiba ele não é uma laranja num  cesto. E não lhe faltam uma cabeça para pensar , uma boca para falar e pernas para se locomover.   E contaminou-se, sei  lá por que .

 Pelo que eu entendi, ele iria propor medidas para normatizar o uso das cotas das passagens.  Desconheço as normas internas do  congresso. Mas ainda que não exista nenhuma norma legal, proibindo a  doação das  passagens  , ele,  sendo um deputado defensor da ética  , não necessitaria   de uma norma,  proibindo-o de utilizar  o dinheiro público para fins particulares.  Até onde eu saiba ele, mais que qualquer  outro parlamentar ,  foi eleito justamente para combater isso.  Ou estou enganada ?  E se por um acaso ele foi vítima de  uma espécie de confusão-cívica-moral que o levou a  confundir o público com o privado , como ele mesmo afirmou,   por que durante a  campanha para prefeito do Rio não nos agradeceu por ter usado o nosso  dinheiro para a filha matar a saudade da irmã no Havaí ?    Como escreveu a Cora Rónai: o que mais ele fez que ainda não veio à tona ?             

       Boa pergunta.

 

 

 

                              



Escrito por Mônica Campos às 17h15
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                 Divã

 Quando o filme acabou ouvi o seguinte comentário de uma mulher: lavei minha alma. Divã, protagonizado impecavelmente pela Lílian  Cabral e dirigido por José Alvarenga, é uma catarse feminina. O cinema, assim como o teatro e a literatura, ou seja, as manifestações  artísticas, no fim das contas,  querem  transformar o mundo em luz. E divã nos emociona por isso. Embora haja muitas sombras, uma delas simbolizada na figura do psicanalista, o caminho é de luz. Muitos filmes, ao abordarem a questão feminina, batem na trave. Divã não.  Ele é aquele time que vai driblando os adversários e na final do campeonato vence  de goleada e a galera pula e se abraça por ser um espetáculo bonito de se ver  . E é.   É muito bonito sentar na cadeira do cinema e assistir a  uma estória cuidadosamente bem contada. É muito bonito assistir a uma atriz se entregar de corpo e alma a uma personagem, conferindo ao ingresso, preço de ouro. E do melhor quilate.  E é muito bonito assistir a uma estória onde não há juízo de valor nas entrelinhas e a moral é que a felicidade é uma questão de escolha e o melhor lugar do mundo poder ser aqui e agora. Ou seja, divã é, em alguns momentos, simples e delicioso que nem uma caminhada na enseada de Botafogo e, em outros momentos, perigoso e arriscado que nem uma escalada ao cume do pão de açúcar. Talvez por isso nos prenda na cadeira e nos deixe grudados nela como se fossemos hera na parede. E entre lágrimas e risos esquecemos do balde de pipoca e do refrigerante  por que é impossível durante 120 minutos fazer outra coisa que não seja torcer para que aquela  mulher que poderia ser eu ou você  fazer a coisa certa.E ela faz.Após 20 anos de casamento, onde o ponto final foi colocado após perceber que a cama do casal servia para tudo menos para lhe dar prazer sexual, Mercedes decide sair da piscina de água morna, cheia de lodo nas bordas, onde boiava junto com o Marido ( Jose´Mayer ) para  se arriscar sozinha nas  borbulhantes e imprevistas ondas do mar .  E para ajudar nesse mergulho, até por que o mar nem sempre está para peixe, ela bate na   porta de um psicanalista. Entra , titubeia, senta, deita e decide no divã encarar as ondas que viriam. E vieram.  Traição , separação, paixões , solidão, arrependimento , amor e frustração e mais um monte de  emoções e situações com a qual nos  identificamos. Reinaldo Gianecchini e Cauã Reymond ( seus amantes )  estão  lindos  e desempenham belamente o papel de sedutores de coroas que vieram ao mundo para provar , através de um explosivo e delicioso  coktail  de beleza  juventude e vigor  que o paraíso existe aqui na terra. E o inferno também.  Como o título sugere, uma parte significante do filme é passado dentro do consultório do psicanalista. As revelações de Mercedez  , além de serem gancho para a cena seguinte,  são muito perturbadoras. A mais polêmica  é quando ela  afirma  não sentir culpa pela traição. E  rindo  diz que sente-se  culpada por não se sentir culpada . Foi um jogo de palavras que levou o cinema abaixo de tanto rir. E a gente sabe  por que.      Mas tudo que toca no emocional é sempre complexo e infelizmente não existe uma rede de proteção nem espiritual e nem psicanalítica e nem de ordem nenhuma para nos salvar dessa onda de contradições, onde vira e mexe nos afogamos e que transborda em torno daquilo que nos é mais caro  nessa vida e aprendemos a chamar de amor.Ao decidir se separar do marido, pai dos seus dois filhos, um homem que ela amou muito e foi seu companheiro durante vinte anos, Mercedez confusa, como qualquer uma nessa situação, diz : a gente se ama,  mas não se quer mais.        

                  Não é à toa que se chama Divã.   

 

 

                   

                 

                     



Escrito por Mônica Campos às 15h00
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